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LIVROS | 4 Livros Sobre Feminismo

Todos Devemos Ser Feministas | Uma capa já conhecida com um interior já amplamente divulgado pela internet, este livro da ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é um ensaio pessoal adaptado de uma conferência TED. Fala-nos do cerne do feminismo, da sua urgência no século XXI e da importância de nos educarmos e educarmos os outros para tal. É um livro com um cunho muito pessoal e que nos fala de uma realidade que não é tanto a nossa. É um livro deveras importante mas muitas vezes não me identifiquei como a audiência da mensagem. Somos ainda presenteados com o conto "Casamenteiros" da mesma autora, que reinforça toda a mensagem introduzida anteriormente.

Um Quarto Só Meu | Mais de cem anos separam o discurso feito por Virginia Woolf na Universidade de Cambridge e a hora em que este livro me veio parar às mãos. Fala-nos da condição da mulher e da condição da mulher enquanto produtora de obra literária, dos constrangimentos sexuais associados à área. Os obstáculos começam no acesso à educação, na liberdade e acesso a meios financeiros chegando até à dificuldade de ter liberdade e espaço para explorar a criatividade. Chamam a esta obra um dos momentos fundadores do feminismo moderno. Uma obra incontornável - mesmo que tenha um raciocínio deveras complicado de seguir na leitura.

Inferior | Li este livro de Angela Saini para um trabalho de Comunicação de Ciência onde a nossa tese era a forma tóxica como a machismo tem minado a ciência e evitado a progressão natural, igualitário e necessário do conhecimento. Fala-nos de como a ciência sempre desvalorizou a mulher e questiona-se sobre a parcialidade científica e os preconceitos inerentes que sempre foram dados como "normais". É um livro abre-olhos, necessário, cheio de provas e evidência que nos impele a uma só coisa: a uma ciência que seja para todos, sem isenções e preconceitos. Que estude e sirva todos, homens e mulheres. De todos os desta lista, foi o meu livro preferido.

Querida Ijeawele - Como Educar Para o Feminismo | Esta é uma carta para uma amiga que perguntou a Chimamanda Ngozi Adichie como deveria educar uma filha para o feminismo. São 15 sugestões entre as quais podemos encontrar "Ensina a tua filha a rejeitar o desejo de agradar" ou "Ensina-a a ler" que pretendem ensinar a pequena filha bebé a ser coerente na sua identidade e a ser independente. É um livro que chama ao desprendimento do outrora. É sobre o que é ser mulher nos dias de hoje e dá-me a esperança nas gerações vindouras, mais informadas, mais independentes, mais livres.

LIVROS | Dentro do Segredo

Sinto uma curiosidade imensa por lugares que provavelmente nunca vou conhecer, por assuntos políticos que não estão à mão de semear e por vivências que são tão longínquas do meu quotidiano. Dentro do Segredo conta-nos de forma exímia, detalhada e sentida a viagem concretizada por José Luís Peixoto à Coreia do Norte. Decorria o ano de 2012 e as celebrações do centenário de Kim Il-Sung. Exatamente por este acontecimento, foi permitida uma viagem maior e com direito à visita a lugares inéditos para estrageiros. É um livro que nos faz viajar desde a decisão de embarcar nesta viagem até ao seu regresso.

É um relato de viagem que nos prende do início ao fim na sua fluidez escrita, faz-nos ingressar nos monumentos, museus, cidades e eventos com a imaginação de uma forma leve, mesmo que o assunto seja pesado e que me tenha levado a ter palpitações mais sentidas em alguns parágrafos. É-nos exposto muito do que acontece e daquilo que o autor vê naquele que é considerado o país mais fechado do mundo, é espelhado aquilo que o autor observa mas também aquilo que o autor sente, oscilando consoante a viagem, o tempo, o cansaço e os acontecimentos.

É um testemunho de vidas e de vivências que tão pouco têm a ver com a nossa, de um culto de personalidade transcendente, de uma exaltação exacerbada, de um respeito imenso ao regime e aos líderes, até as operações cosméticas para-turista-ver. Achei particularmente fascinante os relatos de uma celebração onde todos cantavam e dançavam, das crianças a andarem de transportes públicos sozinhas, das demonstrações públicas de afeto, do que era uma loja lá - "Aquilo que, noutro ponto do mundo, seria apenas uma loja de produtos baratos, de má qualidade, era ali uma síntese garrida de tudo aquilo que a maioria dos norte coreanos não sabe sequer que existe. As suas prateleiras eram a exposição feia do privilégio de alguns. E da mentira.". A descrição de um museu do metro que se revelara um museu das visitas dos líderes ao metro, as pessoas singelas avistadas ao longe a trabalhar nos campos agrícolas, a fronteira. 

É um livro limpo de preconceito, o que para mim é admirável, para outros pode ser simplesmente criticável. Lê-se de rajada e, apesar de ficar fascinada com relatos e testemunhos mas também com o absurdo de algumas ocorrências, deu-me a certeza que não teria coragem de fazer uma viagem destas e que sou imensamente grata por ter o privilégio de viver numa sociedade e num tempo como o nosso.

LIVROS | O Pintor Debaixo do Lava-Loiça

        Há muito que queria ler Afonso Cruz e sinto-me imensamente feliz porque não desiludiu. O Pintor Debaixo do Lava-loiça foi das obras que já ouvi falar mais pela comunidade literária portuguesa e, bem, fui buscá-lo sem qualquer contexto ou expectativa e revelou uma agradável surpresa. Numa simbiose entre aquilo que o autor imagina e a realidade de uma parcela de vida dos seus avós, Afonso Cruz conta-nos a história de um pintor eslovaco na sua fuga da perseguição aos judeus durante a II Guerra Mundial.

        Salpicado de pequenas e caricatas ilustrações e dividido em duas partes, ataca-nos com um ritmo de leitura crescente, leva-nos da infância de Sors, ao seu primeiro amor, à sua família e amigos. Leva-nos aos seus dramas e reflexões, viagens e paradoxos. Leva-nos à dureza da perseguição e ao reerguer do fôlego de quando encontramos quem nos proteja. É a história de vida de alguém que nem nós nem o autor conhecemos. Porém, que lhe foi descrito pelos seus avós, presentes na história. 

        É um conjunto de memórias floreadas, uma homenagem à coragem dos seus avós onde imortaliza uma sequência de vida tão singular, que sobreviveu ali, naquele pequeno espaço de uma casa lisboeta. É com uma escrita simples e aparentemente leve que se contam histórias de um sofrimento imensurável de forma tão deslumbrante. É sobre ser bondoso sem olhar a quem, é sobre fazer uma homenagem bonita a quem amamos. Foi o primeiro livro de Afonso Cruz que li, e que surpresa deslumbrante. Não será o último.


LIVROS | Palavras em Tempos de Crise

        Luís Sepúlveda foi o meu amor do verão passado e quando o vi nas estantes da Livraria Deja Lú, em Cascais, por uma quantia muito simpática soube que o tinha de trazer apenas com uma simples leitura na diagonal da contracapa.

        É um livro de pequenas crónicas e memórias, de capítulo curtos e de alma transposta para o papel. Não há uma história contínua, trata-se simplesmente do autor a contar peripécias da sua vida, das suas viagens, da sua família. Fala-nos muito sobre política, acerca da vida entre o Chile e Espanha, das lutas da população que casam na perfeição com as descrições, a ironia e tantos outro recursos estilísticos. É em capítulos curtos que Sepúlveda projeta o coração para estas páginas através das suas reflexões, senti-me quase como que a ter acesso aos seus pensamentos mais íntimos e puros. Destaco o capítulo sobre a sua cadela, sobre a crise económica e também sobre o porquê de Sepúlveda escrever.

        É um livro curto que nos leva do coração apertado à gargalhada sobretudo quando se refere a reza como oração diária o seu rosário das asneiras. Transcende dos capítulos mais leves para os mais pesados de forma subtil e guia-nos pela sua história de forma tão íntima e estimulante. Bastante bonito.



LIVRO | Terapia de Casal

         O Terapia de Casal, concretizado pela Rita da Nova e o Guilherme Fonseca, é o meu podcast preferido e era claro que quereria consumir mais conteúdo deles. Não pude ir à apresentação do livro mas já sabia que o tinha que ler. Foi com a visita dos meus pais a Pádua, com um presente em mãos e uma dedicatória inigualável que tive a oportunidade de ter Terapia de Casal em livro comigo.

        Este livro é em formato ping-pong, ora fala um, ora fala outro. Foi escrito por duas pessoas e abordam trinta temas que dividem os casais no dia-a-dia, em especial a Rita e o Guilherme. Ser porta-voz do casal, dar gorjetas, conduzir, lidas domésticas são algumas das temáticas abordadas. Tem tudo para ser aborrecido, correto? Porém é o formato de narrativa que o torna interessante. Ou começa um ou o outro a dissertar sobre um tema escolhido, falando das sua irritações para com o outro, justificando o seu ponto de vista. O que se segue? O direito de resposta do outro. No fim, podemos assinalar com quem concordamos mais. Admito que sou #TeamRita, tal como já era no podcast.

        É um livro descontraído e que prima pela competição para ter razão e houve algo que me surpreendeu: é absolutamente hilariante. Nunca me ri tanto a ler algo como Terapia de Casal. Foi um excelente companheiro de viagem com os seus capítulos curtos, a novidade, a perspicácia do comentário, as ilustrações queridinhas  a discórdia permanente. Foi uma incrível adição e mais uma prova do excelente trabalho que a Rita e o Guilherme têm desenvolvido.

LIVRO | Esquerda e Direita: Guia Histórico para o Século XXI

        Dando os primeiros passos na participação e debate político, e através de uma sugestão da Inês Gonçalves, decidi ler este livro da autoria de Rui Tavares - historiador e político - para profundar e enaltecer o meu conhecimento neste campo. Tal como descreve o título, é um livro de história, de como surgiu esta divisão entre a direita política e a esquerda, porque é que se chama assim  e o que é que as dividia quando surgiram e o que é que divide agora. Quer acreditem ou não, remonta à época da Revolução Francesa.

        É um livro de bolso com cerca de cem páginas - lê se num tirinho - que nos leva a pensar se a esquerda e direita são suficientes ou se há mais dimensões que devam fazer parte da equação dado que não existem somente dois enquadramentos políticos. O autor refere sempre que é biased e que escolhe um lado - não fosse ele dirigente partidário - mas menciona-o também para que não seja levado sempre à letra dando liberdade para, claro, pensar diferente e discordar.

        Faz-nos perceber porque é que este binómio continua a fazer sentido nos dias de hoje, pareceu-me uma excelente introdução à política que se faz através da raiz: a partir da História e da Filosofia. Achei a primeira parte mais interessante do que a segunda mas, overall, foi um livro que me cultivou, que mexeu com o meu senso crítico e que me fez questionar algumas opções. É quase um Política para Totós mas acredito que serve para leigos, também! Traz transparência a um mundo que parece tão complexo, chato e inalcançável como a política. Aqui, é simplificado e tornou-me mais confiante nas minha opiniões e nos momentos em que poderei exercer o meu direito de voto. Um livro para ler com calma e sentido crítico.

LIVROS | O Velho que Lia Romances de Amor

        De Luís Sepúlveda, um livro mais crescido do que o do que a História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, que fez parte da infância de todos, pequeno e leve, o meu companheiro de praia a Sotavento. Faz-nos imaginar as densas florestas amazónicas e as suas gentes - dado que o pano de fundo é a América do Sul - e envolve-nos numa história narrada de forma simples porém bela, que eu senti que tinha muitos significados entrelinhas.

        É António Proaño que protagoniza esta obra, vivendo no meio de povos indígenas e de culturas tão diferentes cujo único traço comum é o ódio aos "gringos". Para além da narrativa principal que se sucede devido a várias mortes humanas e animais devido a um feroz animal, António adora ler, especialmente aqueles romances que doem, que amarguram, que ardem no peito. É aqui que se desenvolve a narrativa clara e profunda - mesmo em curtos capítulos - da busca pelo predador e dos tantos paralelismos que encontrei, como com o amor descrito nos romances que António tanto gostava de ler. Outro aspeto curioso foi existirem romances passados em sítios que me são tão familiares, como Paris, mas que era cenário de um romance de António e era-lhe tão distante que não conseguia imaginar sequer. Mas, para mim, El Idílio - onde se passa esta obra e onde António morava - era-me francamente estranho e pouco familiar mas tão comum e natural para o protagonista.

        Leio sobretudo obras europeias e norte-americanas e foi uma agradável surpresa esta narrativa da América do Sul com conceitos, formas de ser e estar e naturezas tão diferentes e é maravilhoso viajar através da leitura e ir em busca do predador com eles. Tem cem páginas, lê se num instante e foi uma delícia, uma lição sobre o amor mas que, em certas páginas, nos faz ter o coração na boca. Um autêntico mergulho noutro mundo. Hei-de reler. 



LIVROS | Caim

        Mais uma obra de Saramago - que tem uma escrita que, além da minha opinião acerca do enredo, me apaixona sempre - que escolhi numa biblioteca por ter tanta curiosidade sobre a forma como um ateu interpreta e escreve sobre temas bíblicos. O título da obra espelha o nome da personagem principal - filho de Adão e Eva e irmão de Abel - e as suas distantes aventuras e desventuras.

        Olhei para este livro muito como a reinterpretação de José Saramago do Antigo Testamento, passando pelo Jardim de Éden e a tentação da serpente, a Torre de Babel, a Arca de Noé e ainda personagens como Lilith, Job ou Josué, tendo sempre presente o seu tom irónico e a sua implacável crítica mordaz. Todo o enredo é o caminho percorrido por Caim, cruzando todas estas narrativas bíblicas estando sempre em conflito com Deus e com as suas decisões. Hilário numas passagens, talvez ilógico noutras, depende de quem lê e da interpretação que faz, claro!

        Achei deveras interessante a interpretação do autor, a miscelânea de histórias que fez e a sátira que construiu em torno deste tema. Achei deveras incomum e curioso e faz-nos questionar muitas das nossas certezas. Não é o meu livro preferido dele e não voltaria a ler, porém a narrativa é simples de apreciar. Afinal de contas, "A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele."

LIVROS | A Décima Ilha

        Entre o Arquipélago dos Açores e o estado da Califórnia, chega-nos o livro A Décima Ilha, da autoria de Diana Marcum - uma jornalista norte-americana - que nos leva à profundezas das raízes dos portugueses emigrados no Central Valley, seguindo-os na sua viagem anual de regresso aquela que será sempre casa e que simbolizará eternamente família.

        Diana está numa  crise pessoal e a sua carreira encontra-se estagnada, não se dirigiu ao arquipélago com fins turísticos. Foi sim para compreender este fenómeno de emigração, conhecer a remota pérola do Atlântico, suas gentes e suas histórias. São as aventuras, as aves e os cetáceos, mas também as hortências, as iguarias e as tradições. São os amigos que conhece, os sem nome com quem troca algumas palavras, uma herança enorme que descobre. A história desenrola-se entre a ilha Terceira, São Jorge e a Califórnia, com várias viagens de barco e de avião pelo meio. Fascinou-me especialmente por se passar em alguns locais que já visitei, como as piscinas dos Biscoitos, os impérios de Angra do Heroísmo ou até quando nos comunicou como ocorreu a descoberta do Algar do Carvão - um vulcão visitável por dentro. Marcou-me pelas saudades de um povo da sua terra natal e da sua família, pelas touradas à corda, as festas populares, as cantigas e o mar azul cristalino. 

        É um livro que anda entre o romance, a biografia e a literatura de viagens. Absolutamente leve, com capítulos curtos e concisos que despertou em mim uma saudade imensa deste arquipélago que vejo como tão meu, de tão feliz que lá fui. É um livro acerca de tantas coisas mas é sobretudo sobre a saudade e eu achei delicioso. Agradecimento especial à Sofia pelo gentil presente de um giveaway!

LIVRO | Se Isto é Um Homem

        Apesar de horrendo, execrável e atroz, o genocídio da "raça impura" nos tempos da Alemanha nazi prende sempre a minha atenção. Não gosto de dizer que "gosto" da época mas tenho um largo interesse em aprender mais. Apesar do vasto e saturado mercado destas narrativas opto sempre pelos discursos reais de quem sofreu na pele a maldade humana que foi o Holocausto. Desta vez a minha escolha recaiu sobre Se Isto é Um Homem, escrito por Primo Levi, um judeu italiano.

        Prisioneiro em Auschwitz-Birkenau desde 1943, descreve-nos alguns episódios da vida quotidiana no campo de concentração. Desde a detenção à demorosa e horrenda viagem de comboio até à Polónia a episódios vários no campo. Fala-nos das pessoas que conhecia, que além do número que têm tatuado têm também um nome, uma ascendência, sonhos, família, ambições. Fala-nos dos sítios onde dormiam, aquilo que comiam, o mercado de trocas de objetos por um simples pedaço de pão. Somos confrontados com a dureza militar, a crueldade da doença, do trabalho escravo na Buna e a vida no Lager. Somos levado pelo dia-a-dia de um prisioneiro até à libertação por parte do exército vermelho. É um livro sem papas na língua e sem floreados, são memórias de um sobrevivente.

        É um relato muito lúcido daquilo que acontecia, da perceção de um ser humano fragilizado fisicamente sobre um dos mais atrozes crimes cometidos pela Humanidade. É uma história de sobrevivência contada na primeira pessoa, por alguém que via o fumo dos crematórios e que fintava as seleções. A história da fome, do frio, da fadiga e do cansaço que se tornaram algo normal. É um livro que impressiona, que nos faz engolir em seco e que não consegui ler rápido. Como esperado, absolutamente arrebatador e pormenorizado. Relembra-nos da História e recorda-nos que não podemos voltar a permitir isto.



LIVROS | A Fabulosa Aventura de André Cocó

A Fabulosa Aventura de André Cocó foi um livro  escrito pelo humorista Diogo Batáguas e ilustrado pelo Nurb que nos conta de uma forma soft e embonecada o populismo, o percurso e os objectivos do líder e deputado do partido Chega com base em factos reais. À primeira vista parece um livro infantil mas garanto que não é dirigido aos mais novos mas sim a nós, cidadãos mais velhos que participam na democracia. Não esperem algo politicamente correcto.

Este pequeno livro - que demorei cerca de meia hora a ler por inteiro - é um brinde ao humor e à liberdade de expressão sobre uma das maiores ameaças dos dias de hoje: a crescente normalização da extrema direita no mundo que  se encontra cada vez mais perto de nós. É um alerta cómico sobre se queremos propagar o mau cheiro, como o André Cocó e os seus seguidores, ou se queremos um mundo que cheire bem e que seja feito de respeito, paz e amor. É um livro sem conclusão escrita, onde o autor refere que somos nós que construímos o final desta história. É um livro cheio de pormenores deliciosos que me fizeram rir à gargalhada, exemplifico com as recomendações na contracapa "escritas" por seres como Adolf Cocó, Donald Cocó e Jair Cocó, genial.

Este livro trata de forma leviana uma das personagens da actualidade política que mais abomino, de forma cómica e com ilustrações absolutamente extraordinárias, não é, de todo, um livro infantil! Não é das obras literárias que costumo consumir mas quis muito adquiri-la por tudo aquilo que representa. Tanto o Diogo como o Nurb estão de parabéns por todo o trabalho, cujo valor reverte para o Banco Alimentar Contra a Fome, podem inclusive ouvir o humorista a ler a obra na íntegra aqui!


LIVROS | Ensaio Sobre a Cegueira

   No meu 12ºano tive que ler O Ano da Morte de Ricardo Reis e não adorei a história, porém, adorei, com o coração, a fluência e eficácia da escrita de Saramago. O Ensaio Sobre a Cegueira foi a oportunidade de voltar a apaixonar-me pela escrita do autor com um história que não me largasse. Este Ensaio fala-nos de uma pandemia de cegueira branca que atinge um país sem nome e pessoas sem nome - somente distintas por características como a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico - e mostra-nos o que aconteceria se tal fosse real. Fui impulsionada a ler esta obra muito por estarmos, também nós, a atravessar uma pandemia, embora com diferentes contornos.

   Este livro explora o que aconteceria se, à vez, todos os habitantes cegassem, começando por um único homem. Esta epidemia rapidamente se expande e o governo toma medidas para isolar a população cega da população saudável num só local. Neste isolamento, são revelados os instintos e impulsos mais naturais do ser humano, somente uma mulher consegue manter a visão no meio de tanto horror e ela observa tudo de forma secreta e silenciosa. Presencia violência, injustiças, abusos, assédio, mortes e tantas outras coisas horripilantes. Toda a cidade acaba por cegar e os instintos primitivos e selvagens vêm à tona, assim como o nomadismo e a imundice, a luta pela sobrevivência é aquilo que mais presenciamos nesta obra de Saramago.

   Este livro é acerca de resiliência e sofrimento, um autentico ensaio sociológico sobre o que provavelmente nos aconteceria numa situação destas. Sofri em conjunto com as personagens e cheguei a chorar com algumas descrições tão bárbaras e angustiantes. Sem sintomas, sem cura, esta é a história de um mundo perturbado pelo "mal branco" onde o que importa é sobreviver a todo o custo. É uma leitura muito fluída e com várias metáforas (afinal, o que é a "cegueira"?) e lições para retirar, com a escrita característica de Saramago, por vezes leve, por vezes dura e dolorosa que só me deu ainda mais sede de Saramago, que génio da literatura!


LIVROS | A Caminho do Triunfo

   Robert Baden-Powell não só foi um general do exército britânico como fundou o escutismo - algo que me diz muito - e, desse modo deixou variadíssimos registos escritos para crianças e jovens sobre os mais diversos assuntos. É uma figura pela qual tenho muito respeito e carinho e, dada a fase de vida em que me encontro, recomendaram-me a leitura do A Caminho do Triunfo, que apesar de ter alguns termos técnicos não é um livro só para escuteiros, é endereçado a todos os jovens.

   A Caminho do Triunfo relata a forma de alcançar a felicidade utilizando a metáfora de uma canoa num rio, a primeira simboliza-nos a nós e o rio simboliza o correr da vida. Temos, assim, o poder de manobrar a nossa canoa como queremos tentando evitar os escolhos - situações que nos desviam do caminho para a felicidade, apesar disso refere que "as dificuldades são o sal da vida". Enuncia também que a felicidade não é o mesmo que prazer - algo efémero. Devemos procurar a felicidade passivamente - ao contemplarmos o que existe ao nosso redor - e ativamente - não esperando que as coisas venham ter connosco. Explana igualmente duas chaves essenciais para a felicidade: não levar nada muito a sério, encarar a vida como um jogo e o mundo como um campo de jogos e, para além disto, fazer com que todas as nossas ações sejam orientadas pelo amor. 

   No desenvolvimento do livro, o autor revela cinco escolhos que se põem no nosso caminho, cada um tem o seu lado sombrio e o seu lado luminoso e temos de perceber como os encarar de modo a não encalhar. Os capítulo dos Cavalos fala acerca do perigo das apostas e da falta de desportivismo, o Vinho é acerca da perigosidade dos vícios, da dependência e dos excessos, Mulheres é um capítulo relativo à falta de cavalheirismo e aos abusos, já os Cucos e Impostores retrata os que vivem à custa dos outros, por último, a Irreligião refere-se ao perigo do ateísmo.

   Apesar de ter sido escrito nos anos 20, achei o livro incrivelmente actual e com uma perspicácia brilhante - apesar de notar umas pontinhas de machismo. Foi escrito com o intuito de nos aconselhar a como navegar nos rios da vida e a enfrentar os escolhos que se metem no nosso caminho.  Por já ser muito experiente nisto da vida, ter cometido vários erros e aprendido com eles, Baden-Powell, escreve-nos para que não façamos o mesmo, diz também que devemos partilhar as nossas experiências de modo a ajudar o nosso semelhante nas mesmas adversidades. Não é uma obra dirigida a quem já viveu e se sente realizado, mas sim para jovens que ainda estão um pouco perdidos a tentar manobrar a sua canoa. Diria que foi o livro certo na altura certa, para ler de lápis na mão a sublinhar e para estar sempre na prateleira. Abriu-me os olhos e fez-me, de facto, reflectir acerca da minha vida e até adoptar uma postura diferente. Genuinamente brilhante. É verdadeiramente um livro de auto-ajuda do século passado, bastante atual, simples e eficaz.



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