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SÉRIES | Glória

        Assim que anunciaram a sua estreia, marquei na minha agenda, não podia perder a primeira série portuguesa na Netflix por nada deste mundo. Glória do Ribatejo como pano de fundo, tantos actores do panorama português a contracenar e uma história que dá muito pano para mangas, Glória chegou à plataforma de streaming e, na minha óptica, brilhou.

        É em plena década de 60 que encontramos a RARET, uma estação de retransmissão de sinais de rádio, que transmitia conteúdos americanos para a União Soviética de forma ilegal, ultrapassando o fechamento da cortina de ferro e também ideológico. Tudo isto enquanto que em Portugal se vive numa ditadura, em que os filhos vão para o Ultramar, as mulheres ficam em casa a cuidar do lar e a violência da PIDE é algo comum e que prevalece. Entre tantas personagens revela-se um agente KGB infiltrado na estação. Esta é a história que não só se situa no Estado Novo como na Guerra Fria, que mistura americanos, portugueses e russos num enredo que entusiasma o espectador.


        Uma produção brilhante, atenta ao pormenor, com um fio condutor e um ritmo que cativam e ainda uma fotografia e uma sonoplastia que agarram e fascinam. É preciso estômago para observar a violência machista e a violência do Ultramar mas é preciso também sensibilidade para compreender o seu contexto. Um retrato social muito cru, mesmo sendo ficção, lá tem os seus pontos de verdade. Adoro séries com contexto histórico e garanto que Glória me encheu as medidas.


        Olho para Glória e não tenho certezas sobre se terá sucesso internacional por ser um bocadinho de nicho, a nossa história é imensamente particular e há singelos pormenores, frases e costumes que são tão nossos. Porém, também acredito que, ao público internacional, pode dar um gostinho da particularidade histórica vivenciada em Portugal e também daquele que foi e é o povo português. No entanto, tem sido um sucesso em Portugal e é totalmente merecido. Confesso que fiquei muito confusa com o final da temporada e por isso aguardo ansiosamente a possibilidade de uma nova para fechar pontas soltas e colocar pontos nos i's. Aos meus olhos, sublime e brilhantemente executado.


SÉRIES | Derry Girls

        Foi com Derry Girls que descobri a minha combinação preferida de série: ser curta mas simultaneamente ter um forte contexto histórico e ainda ser parva que dói, para me rir um bocadinho. É a história de um grupo de amigas que reside em Londonderry, na Irlanda, durante a Guerra entre protestantes e católicos ali entre os anos 80 e 90.

        Apesar de o contexto histórico ser somente pano de fundo, é interessantíssimo ver como as família irlandesas viviam com ameaças terroristas, fome e miséria, é algo tão longínquo mas tão recente estes conflitos entre correntes religiosas. É com este contexto que Erin e as amigas vivem a sua adolescência comum enquanto frequentam um colégio católico e é com sarcasmo e um brilhante sentido de humor que estes jovens enfrentam a sua família, as freiras que dirigem o colégio, as colegas chatas e todos os struggles de estar no ensino secundário e de ser jovem. Um humor inteligente sem se tornar parolo, temáticas diferentes mas lidadas de forma muito natural e ainda uma visão da religião muito descontraída e até irónica.

        É uma série pouco conhecida mas uma valente joia do catálogo Netflix, dá vontade de fazer binge watching mas de simultaneamente retardar a visualização do episódio seguinte porque não queremos acabar. Mesmo que se passe numa altura conturbada, fez-me rir imensas vezes - e acredito que é um excelente sinal dado que sou de riso difícil. Gravado da Irlanda e com elenco irlandês (e o seu interessante sotaque), vejam!

SÉRIES | The Circle: França

        Há que admitir, adoro um bom reality show que não me acrescente nada somente para esvaziar a mente mas gosto sobretudo de reality shows pela análise social e comportamental que consigo construir através da sua visualização. Quando me falaram sobre o The Circle como um reality de rede social e influencers torci o nariz trinta vezes mas somente ao começar a ver por curiosidade - mesmo que sem grande esperança - que percebi que o formato era muitíssimo inteligente.

        O The Circle reúne vários concorrentes que só se conhecem através da rede social que dá nome ao programa, criam perfis, bios, adicionam fotografias, estados, entre outros, e, de forma exacerbada - dado que não têm outra forma de compreender as pessoas - julgam-nas através destes pedacinho. A manha está que, tal como na internet, nem toda a gente é quem parece e, daí, surgem os catfish - e é hilariante ver um rapaz a agir como se fosse a namorada, uma avó a agir como o neto, alguém a manter a sua personalidade mas a utilizar fotos de um amigo - e é hilariante vê-los a tentar agir como se fossem eles. Assim, no The Circle - que é uma app acionada por voz e nunca se vendo além das fotografias de perfil - os concorrentes falam entre si, criam grupos, alianças e rivalidades e, no fim de cada episódio votam nos mais influentes dentro deste círculo podendo, por fim, bloquear um jogador. Posteriormente, este poderá visitar alguém à sua escolha e é simplesmente incrível estas reuniões após vários dias por detrás de um ecrã.

        Parece bizarro e sem interesse mas é brutal de acompanhar as estratégias e as rivalidades pelos primeiros lugares, é brutal compreender os processos cognitivos, perceber as ciladas e a forma como as pessoas se protegem por detrás de um ecrã e jogam com a informação e a suposição - tal como na vida real. É deslumbrante perceber de que forma uma ação pode ser interpretada de uma forma ou de outra. Achei hilariante alguns desafios e jogos, sofri com alguns concorrentes e revirei os olhos com outros. Optei por ver o francês que, apesar de lento ao inicio, se revelou orgânico e me prendeu ao ecrã do início ao fim. Uma luta pelo primeiro lugar que se torna em muito mais do que isso, a estratégia, a paciência e os aliados são a chave para este jogo. 

SÉRIES | The Crown

         Mais um produto proveniente das minhas intensivas férias académicas: outra série concluída. The Crown é mais uma série Netflix com quatro temporada e que, até ao momento, percorre o reinado de Elizabeth II desde o falecimento do seu antecessor até por volta dos anos oitenta. Começa no pós II Guerra Mundial e leva-nos às profundezas da monarquia britânica, do dever aos sentimentos passando pelos conflitos pessoais, crises, amores e desamores. Sua Alteza Real e todos os que a rodeiam são pessoas reais que têm de obedecer ao controverso sistema do qual fazem parte, esta é a sua história.

        Leva-nos a viver ao segundo momentos como a alunagem, o apartheid, a morte do presidente Kennedy, a Crise do Suez entre tantas outras que Elizabeth II protagonizou como rainha. Cruza-nos com personalidades como Churchill, Thatcher, Neil Armstrong e até Lady Diana, são quatro temporadas que misturam os factos históricos com a interpretação dos roteiristas e ainda um toque de imaginação, aliás há momentos que não passam de rumores e de suposições, no entanto a série é dotada de uma organicidade que não observava há muito. 

        Algo que adorei foi não só observar o crescimento e desenvolvimento da família real como observar a evolução em tantos outros aspectos: das tecnologias existentes, aos media chegando até aos figurinos - onde verificamos a "subida das saias"! Acredito que está não só brilhantemente escrito como estupendamente bem realizado, a fotografia é deslumbrante - tanto que muitas vezes pausei somente para apreciar a simetria, o requinte e beleza de alguns planos - e é imensamente rica em detalhes deliciosos. Não fui a maior fã de episódios inteiramente político-económicos mas vivi intensamente todos aqueles que nos falam de vivências e de episódios sociais - como o episódio do Charles na escola e em Gales ou do desastre de Aberfen. No entanto, há um excelente equilibro entre temáticas o que facilita a visualização. Os cenários são deveras deslumbrantes e houve um excelente trabalho de atores.

        É uma série história muitíssimo bem desenhada e que não cai no vulgar. Rapidamente se tornou numa das minhas séries prediletas e anseio ferverosamente pelas temporadas seguintes. Repleto de curiosidade histórica sem se tornar chata e pesada, tem um imenso mérito. Da política ao amor, do dever aos problemas sociais, esta é a história do reinado de Elizabeth II que cruza décadas, personalidades, marcos históricos. Numa palavra: sublime.

SÉRIES | Fate: The Winx Saga

        Desde o seu anúncio que estava ansiosa pelo dia de estreia e a verdade é que Fate: The Winx Saga saiu hoje na plataforma Netflix e foi também hoje que a concluí. São seis episódios dos dramas de Alfea que me remeteram para a minha infância apesar das enormes diferenças. Afinal de contas, as Winx eram o meu desenho animado preferido, eram as nossas brincadeiras no recreio da escola, tinha mesmo de ver.

        É a história de cinco fadas - a Bloom, a Stella, a Musa, a Aisha e a Terra - numa escola onde enfrentam imensos desafios e onde aprendem a controlar os seus poderes e, consequentemente, aquilo que sentem. Gira muito em torno da Bloom, dos seus poderes e do seu passado mas é também uma história de luta entre o bem e o mal, a racionalidade e a emocionalidade mas também de amizade e de sede de sabedoria sobre o que ficou por contar. É diferente da série animada que via em miúda numa imensidão de aspectos mas aproxima-se deste noutros tantos. Fate é uma série que humaniza as Winx e que as torna em adolescentes reais com problemas comuns, o que eleva o público antigo do infantil para o juvenil - o que por vezes me pareceu um tanto quanto forçado. Provocou-me suspense - e houve alturas em que cheguei a ter medo - mas também me trouxe uma sede imensa de descobrir o que aconteceria a seguir. 

        Não é brilhante - e acho que em termos de execução e principalmente de figurino poderia estar melhor conseguido - mas eu gostei, aliás, a minha criança interior esteve radiante o tempo todo. Deixou me imensamente curiosa com possíveis próximas temporadas, ainda faltam respostas..! Aconselho a ver, não costumo gostar de fantasias mas esta série, talvez pela ligação emocional, prendeu-me do início ao fim. Desliguem-se do que já sabiam sobre as Winx, é para desfrutar de cabeça limpa e sem amarras passadas.

SÉRIES | Cheer

   "Leonor, tens de ver esta série, vais adorar!" - foi assim que conheci Cheer, um documentário Netflix que estreou em Janeiro deste ano. A premissa é simples, acompanha os multi-campeões nacionais de cheerleading universitário, pertencentes à Navarro College, no Texas,  durante mais um ano de preparação até à próxima grande competição em Daytona Beach. Há pressão, uma reputação a manter e, literalmente, demasiado sangue, suor e lágrimas.

   Recomendaram-me porque sabiam que eu me ia identificar com muitos momentos: as lesões, a exaustão, a abdicação em prol da paixão, a insatisfação mas também o esforço colectivo e a sensação familiar do grupo. Sempre vivi muito perto disto. Este documentário, que tem seis episódios e se vê num ápice, desconstrói o estereótipo de cheerleader. São mais do que pompons, futilidade e glamour, aborda temas como os problemas familiares, traumas, insucesso escolar ou até excesso de peso e não corresponder ao "típico". Fala tanto do esforço físico e psicológico destes atletas de alta-competição que desafiam as leis da física e os limites do próprio corpo. Todos eles encontraram um lugar seguro para serem quem são no praticável de treino e nos abraços da exigente técnica Mónica Aldama.

   É um documentário que nos faz, verdadeiramente, vibrar. Eu sofri com eles, eu fiquei nervosa por eles ao ponto de suar e tremer. Baseia-se numa vida de dedicação plena à competição de Daytona, de uma reputação e um título a manter e a uma verdadeira família. Desconstruiu muitos dos estereótipos que tinha quanto ao cheerleading - que aqui passa muito mais pela ginástica pura e dura e pelo seu perigo do que pelas típicas claques desportivas. Envolve, chateia, prende. É assim que classifico Cheer. Pode ser algo comum para os outros mas eu senti este documentário na pele. 


SÉRIES | Sex Education

   Estreada em 2019, a série britânica Sex Education chegou não só para quebrar tabus como para conquistar os corações da minha geração, e cumpriu. Penso que não seja tão popular no pessoal mais velho mas entre os meus amigos e colegas é extremamente acarinhada. Detém duas temporadas e dezasseis episódios no total, a produção é, na sua grande maioria, feminina e nas cenas mais intimas reina o consentimento e o profissionalismo. Sex Education gira em torno de uma escola inglesa cheia de adolescentes a fervilhar de hormonas, com dúvidas, problemas, amores e desamores. Neste decorrimento surge quem os ajude com todas estas questões. Apesar de awkward e peculiar é, também, muito real e crua.

   São referidos temas como a ansiedade, o aborto, a panssexualidade, traumas, abuso de drogas, amizades tóxicas, o vaginismo, o bullying, o consentimento, o assédio, entre muitos muitos outros, se for tabu, Sex Education aborda de forma descomplicada e natural. É verdadeiramente bonito presenciar o seu desenvolvimento. Muito actual mas com uma estética muito 80's, Sex Education conquista pelo elenco diversificado e pelo encadeamento orgânico e nada forçado. Tem drama, tem comédia mas sobretudo tem realidade, tem personagens complexas e extremamente bem construídas, algumas pelas quais tenho com um grande carinho - como a Maeve, a Jean ou o Eric.

   Digo-vos, com toda a sinceridade,  que sou uma pastelona a ver séries mas esta eu visionei num ápice, é tão fácil de ver e nem por um segundo sinto que nunca mais acabada. É fluída, pega em nós e só nos larga nos créditos finais, absolutamente viciante e vai muito além da parte íntima, há sentimento, há profundidade, há aprendizagens a reter, por muito leigos que sejam, vão sempre aprender algo com Sex Education. Tudo com humor e muita amizade e amor à mistura, absolutamente brilhante.


 
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