Integro este movimento, que tanto amo e admiro, há doze anos e nunca houve jornada como a que percorri nos últimos tempos. Em Setembro despedi-me da IIIª secção - os que envergam o azul, que têm entre 14 e 18 anos - onde passei por muito e tanto fui enterrada como subi ao pico mais alto, literalmente, tanto venci como fui derrotada. Os pioneiros marcaram o crescimento pessoal e de pensamento, de tentativa-erro e de família verdadeira. Fechando este capítulo, entreguei-me de alma e coração à IVª - os que vestem o vermelho-sangue e cujas idades vão dos 18 aos 22. Os últimos meses não deram tréguas. Foram altura de reflexão, de aprendizagem, de sacrifício e de perceber o que é Servir*. Tempos de conversão, de crescimento pessoal, de saber gerir prioridades, de querer, ser e estar. Um percurso de sentido e que faz sentido. Aprendi porque estou aqui e como quero enfrentar a vida, muito com a ajuda deste
livro que é o pilar base do Caminheirismo
Tudo isto culminou nos dias que passaram, onde a emoção foi imensa e inversamente proporcional às horas de descanso. Sabia que nos esperava algo grande e especial mas não tinha noção que a minha Velada D'Armas** seria tão marcante e impactante. Fui sem expectativas e com algum medo mas a noite em claro que passei em reflexão e profundeza interior foram importantes para o compromisso que queria, mais do que tudo, assumir. Foi um caminho muito duro onde a vontade falou mais alto que as vozes que nos deitam a baixo. Foi momento de uma decisão pessoal, de joelhos a tremer, coração a palpitar e de certeza. Enquanto toda a gente descansava, eu e os meus éramos confrontados com escolhas, com ânsias e com revolta. O nosso desafio final não foi simples e o impacto que teve foi extraordinário e marcar-nos-á para sempre. Apesar de duro, foi muito importante.
Tudo isto para subirmos ao altar durante quinze minutos e renovar-mos uma promessa de vida. Fiz uma em 2008, outra em 2012 e também em 2016, num contexto muito diferente. Um compromisso que nos impele a sermos a nossa melhor versão de nós mesmos, a sermos testemunho de fé, de fraternidade, de amor, a fazermos o possível e o impossível. Um compromisso para com toda a comunidade, o meu clã***, o meu país, Deus mas sobretudo para comigo. Jurei sobre a bandeira do meu país, do meu agrupamento, o Evangelho e o Círio Pascal em seguir as pegadas do Homem Novo, ser cada vez mais a melhor versão de mim própria e fazer da atitude de serviço um mandamento de vida. Não se promete de ânimo leve e por isso levei a cerimónia toda a verter lágrimas enquanto decorria. O lenço vermelho que recebi é símbolo de entrega, de paixão mas sobretudo de uma responsabilidade imensamente pesada e profunda mas que foi feito para o meu projecto de vida. Foi-me também entregue e benzida uma vara bifurcada, símbolo das encruzilhadas que encontramos no caminho, existe o percurso fácil mas errado mas também o que envolve sacrifício mas nos leva a triunfar. Somos chamados a saber escolher, numa altura de vida em que surgem tantas encruzilhadas.
Estou profundamente grata por ter conseguido conquistar algo que ambicionava há tanto tempo, foi um caminho verdadeiramente transformador e de conversão e sei que não é uma meta mas sim o início de pista para as melhores aventuras e aprendizagens. Este é um caminho individual mas jamais solitário e por isso tenho de fazer um agradecimento profundo ao meu clã, que preparou tudo e que nos integraram como ninguém, aos meus chefes - ao Perna em especial por ser um exemplo de escuteiro e um mestre da fotografia e à Irina que tem um percurso semelhante ao meu e que soube escolher o correto mesmo à custa de sacrifício, como eu, e que dá os melhores high-fives. À minha família, o meu pilar e o meu porto de abrigo em tudo, aos meus amigos, que mesmo não sendo católicos sentiram a emoção da cerimónia e foi muito importante tê-los a testemunhar este dia. Ao Dani, a quem me agarrei a chorar e que me recebeu com o maior abraço do mundo, obrigada pela paciência, pela força, pela compreensão e sobretudo por caminhares lado-a-lado comigo "apesar das fadigas e das contradições da jornada"****, em todas as circunstâncias. Ao Pedro, o meu padrinho da vida, a todos os que me congratularam, abraçaram e não me deixaram desistir e um agradecimento especial à Joana, a minha melhor amiga da vida inteira, que veio de Manchester de propósito para me fazer uma surpresa, esta foi a única promessa que não fiz ao lado dela e não fazia sentido ela não estar presente. Por último, mas não menos importante, a todos aqueles que prometeram em simultâneo comigo, que riram, que choraram e reflectiram, não faria sentido sem vocês. Uma geração ponderada, unida e que muitos marcou. Muito grata por aquilo que vivi, pelo percurso que fiz e por quem tive a testemunhar um momento tão sagrado e importante. É só o começo de algo desafiante, porém nada fácil. E estou pronta!

Um pequeno glossário porque quero, mesmo, que compreendam esta publicação e aquilo que vivi:
* Servir é o nosso lema e algo constante. Assemelha-se a "voluntariado" mas é algo permanente, de viver com e para os outros. É estar disposto a abdicar, sacrificar e a ser altruísta. Vivemos em atitude de serviço.
** A Velada D'Armas ou Vigília de Oração é a noite anterior à promessa que busca a reflexão sobre o compromisso que se vai realizar. É inspirado nos rituais medievais em que os cavaleiros passavam uma noite em claro em oração antes de partir para as suas batalhas.
*** um Clã é o conjunto de Caminheiros
****este é um excerto da oração do caminheiro